- Então, o que aconteceu de tão importante que só pode ser mencionado para a sua melhor amiga louca e psicótica? – ele abriu um sorriso.
- Sabe, Anna, você não é tão ruim quando imagina. Tem vezes que você sabe ser legalzinha. – eu dei um soco de leve no seu ombro e ele jogou a cabeça para trás e riu. Eu fiz o mesmo.
- Deixa de ser babaca por um minuto e me conta logo.
O desconforto passou pelo seu rosto bronzeado e perfeitamente delineado, mas isso não diminuiu sua beleza. Ele era aquele tipo de garoto que se espera ver nessas revistas adolescentes que toda garota já leu um dia – a perfeição em sua forma humana. Nenhum único traço dele saia daquela simetria. Nenhum cicatriz, marca de nascença, sinal, espinha. Na-da. Até mesmo cada fio de seus cabelos estava em ordem. A única coisa que parecia fora do lugar, era aquele sorriso desconfortável.
- Eu conheci uma pessoa enquanto estava viajando…
Meu corpo gelou com a verdade da confissão que havia lhe escapado dos lábios. Parecia engraçado, logo agora, sentir medo de alguma coisa. Eu não deveria sentir ciúmes. Eu não deveria querer socar a cabeça dessa garota sem ao menos lhe conhecer. Eu não deveria sentir metade das coisas irracionais que estava sentindo naquele exato momento. Nem mesmo aquele pavor absurdo de perdê-lo, considerando que nem meu ele era.
Só que, infelizmente, eu sentia. E como sentia.
- Ah, é mesmo? E como a garota se chama?
- Larissa. Mas ela não é como essas Larissas daqui do sul. Ela é… Você ia gostar dela, Anna. Vocês duas se parecem muito. O negócio do cabelo comprido e moreno e a raiva por loiras e etc. Ela lê bastante. Diz que escreve também. Mas eu duvido, é extrovertida demais para ser escritora. – ele passou a mão pelos cabelos loiros – Ela conversou comigo da mesma maneira que você sempre conversa, Anna… Como se me enxergasse além do rosto. – uma facada a mais pelas costas.
- Como assim? – eu fiz uma pergunta banal para tentar afastar da minha mente a confusão que sentia naquele momento.
- Tipo… A alma, sabe?
- Então, você encontrou a garota certa. – foi mais uma afirmação que uma pergunta e eu falei de uma maneira meio sarcástica, mas tive a impressão de que ele não fora capaz de perceber. – Quando vou ter que achar a roupa de madrinha?
Ele soltou a cabeça para trás e gargalhou.
- Não, Anna, pelo amor de Deus! Se fosse por isso, eu já teria encontrado você. – Por dentro, meu coração apitou e eu tentei reagir àquela frase como se não fosse nada demais. – Mas, ainda assim, me fez pensar que talvez eu esteja, não sei, gastando muita energia com garotas inúteis, sabe? Talvez… Talvez eu devesse me concentrar em algo mais sério e verdadeiro.
Foi impressão minha ou os seus olhos me encararam de uma forma mais… Profunda?
- Talvez você esteja exagerando, Bernardo. Nós ainda somos muito novos para nos preocuparmos com esse tipo de coisa, sabe? Amor verdadeiro. – eu respirei fundo. – Parece algo tão superficial comparado ao resto todo. Se fosse amor, não haveria necessidade de se dizer verdadeiro. Só “amor” já bastaria. E eu sei que eu estou falando merda, mas eu não quero que o meu melhor amigo se apaixone por uma garota que mora a quilômetros de distância dele e depois fique nos meus ouvidos me enchendo o saco por causa disso. – Eu olhei para ele e dei um sorriso. – Você sabe que eu não sou a única chata daqui.
Sabia que estava enchendo lingüiça e que mal sabia sobre o que estava falando, mas eu senti uma necessidade avassaladora de preencher esse súbito vazio que ele sentiu dentro dele mesmo. Era mais ou menos assim que a gente funcionava – sem reclamações, brigas, nem nada ofensivo. Eram contadas nos dedos as vezes que a gente discutia e se xingava. Foram duas, no máximo. E uma delas quando nós estávamos na primeira série. A outra deve fazer uns dois anos, e ele logo pediu desculpas, dizendo que não deveria ter dito nada daquilo.
O verdadeiro problema é que, na verdade, ele deveria sim.
Às vezes eu penso que ele talvez não seja totalmente sincero comigo quando diz que não vê nada errado em mim. Mas, afinal, quem sou eu para discordar? Nunca entendi a sina que a maior parte das garotas tem por se sentirem atraídas por esses cafajestes que só pensam em si mesmos. O Bernardo podia não ser santo, mas eu nunca havia o visto tratar mal uma garota. Nem mesmo as mais vagabundas com quem já havia ficado. Na verdade, ele ligava no dia seguinte, mandava mensagem e fazia todas essas coisinhas para agradar o sexo oposto. Pena que isso dava esperança para a maior parte delas, que ligavam sem pausas para ele durante semanas a fio.
Até que ele, educadamente, dizia que não estava interessado.
Mas nunca era um canalha, com certeza.
- Ei. – ele me abraçou pelos ombros. – Senti sua falta enquanto estava viajando, sabe?
- Pensei que houvesse encontrado uma substituta perfeita para mim. – disse em tom de deboche.
- Eu não disse isso! Disse apenas que havia me envolvido…
-… e se apaixonado…
- Por uma garota parecida com você. Eu realmente pensei que ela pudesse ser o amor da minha vida por uns cinco dias, mas aí ela disse que não entendia como alguém poderia gostar de Harry Potter. – ele sacudiu a cabeça, fingindo decepção – Naquele momento, acabou o encantamento, acabou o amor, acabou tudo. Que tipo de garota ela pensa que é?
Eu comecei a gargalhar e senti o ar na minha volta ficar mais leve. Então, ele não estava perdidamente apaixonado por outra garota. Não que isso significasse que estava sentindo algo por mim, mas, ainda assim, era melhor do que se houvesse uma terceira pessoa no meio disso.
- Tudo bem, eu também senti a sua falta.
O sol começava a cair lá no fundo do mar, e eu pensei que talvez fosse melhor voltar para a casa ou, pelo menos, voltar para as minhas amigas. À essa hora elas já deveriam querer ir embora, pois ficava frio. Eu tinha o Ber e seu braço nos meus ombros. Elas, que eu saiba, não tinham ninguém.
A não ser que o Pedro resolvesse abraçar as duas ao mesmo tempo. O que, considerando os fatos, era bem provável.
Nós andamos o caminho de volta em silêncio, ambos perdidos em pensamentos e tentando pensar no que aquele silêncio todo significava. Não era algo comum entre nós e, para ser sincera, parecia um pouco desconfortável. Não era aquela coisa mágica que os livros sempre tentavam fazer parecer – era bem esquisito, na verdade. Quase como se nós quiséssemos nos dizer algo, e não pudéssemos. Eu queria dizer que as férias haviam sido uma droga sem ele. Queria que ele soubesse que, nesse tempo longe, eu havia percebido que não o queria apenas como amigo. Queria que ele fosse meu.
E ele… Ele deveria estar pensando sobre como me contar da sua futura conquista.
- Ahn… Anna?
- Sim?
- Você vai naquela festa sábado, certo? Da Cabana.
Se essa era a brilhante maneira dele de quebrar o silêncio, talvez fosse melhor continuarmos quietos.
- Acho que sim, as garotas me matariam se eu não fosse. Você vai?
- Sim, claro que sim. Parece que meu primo está na cidade para passar um ano. Último ano do colégio, preparação para o vestibular e etc. Os pais dele queriam que ele fosse para fora da cidade, acho que estão tentando evitar que ele só saia quando deveria estudar. Meus pais queriam que ele ficasse lá em casa, mas o cara recusou. Ele é meio esquisito, às vezes. Gosta de ficar sozinho, parece até você. Mas é gente fina. Eu vou levar ele para conhecer o pessoal no sábado.
- É algum primo que eu conheça?
- Não. – ele sorriu – E, sendo sincero, eu não tenho certeza se quero que você algum dia o conheça.
- Por quê?
Estávamos tão perto que eu já podia ouvir a risada da Bia para alguma das piadinhas do Pedro. E já podia ver o biquíni laranja da Laura. Eles nos viram e começaram a acenar para nós e fazer algumas piadinhas estúpidas de casais que tínhamos que ouvir sempre que saíamos juntos.
- Ah… Deixa pra lá. Só me promete que não vai se deixar envolver com ele.
Eu assenti com a cabeça, não concordando nem discordando. Na verdade, eu nem estava ouvindo.
- Anna, por favor! É a nossa última semana de férias. Depois, nós vamos voltar ao martírio que é ir à escola todos os dias da semana, sem nem conseguir respirar! – eu ri do exagero da Bia.
- Como se nós não saíssemos durante as aulas também. – repliquei.
- Verdade, Bia. Mas, mesmo assim, eu acho que nós deveríamos ir. A Cabana sempre dá umas festas legais, sempre distrai a mente de coisas ruins e etc. Além disso, todo mundo vai nessa Última Fantasia. – a Laura era a mais sensata de nós três, com certeza. Sensata e perceptiva. Seus olhos me perfuraram quando ela disse “distrai a mente de coisas ruins”. – Parece nome de um baile de máscaras, mas, que eu saiba, não é.
- Imagina só que romântico! – disse Bia.
- Isso parece nome de filme pornô, gurias. – eu falei com um tom sarcástico.
- Anna, não importa o nome! – se eu dissesse mais alguma coisa, acho que a Bia chorava. A Laura começou a rir e concordou comigo.
- Eu não disse que eu não iria, só comentei que o nome da festa é horrível. Vocês não me deram a mínima chance de responder. – Eu sorri
- Então…?
- Perder meu fim de semana com a minha mãe cozinhando e ouvindo músicas ruins a todo volume ou indo à uma festa com as minhas amigas? Escolha difícil essa.
- Fala com todas as letras! Sério, Anna. Não vai ser a mesma coisa sem você.
- Acho que eu posso fazer esse esforço por vocês… – Nós três caímos na gargalhada e começamos a andar em direção ao píer.
A praia de Leona não era exatamente a mais bonita de todas, mas fazia muito sol durante o verão e a cidade em si era feita de gente mais nova. Por isso, ninguém se importava muito com o fato de que a água não era tão limpa quanto devia, nem tão azul. E que ventava bastante em alguns dias. A galera toda – a minha galera, pelo menos – se reunia perto do píer, na frente da cabana do Tio João e passava a tarde inteira vadiando por ali. Tinha vezes que os guris inventavam alguma coisa estúpida e engraçada para fazer e nós acabávamos nos metendo em furada. Como a vez em que eles resolveram invadir uma das casas beira mar que pareciam abandonadas durante o inverno para roubar comida da cozinha.
No final, eles voltaram com uma batata Ruffles, três PlayBoys e cinco camisinhas.
É por isso que nós sempre acabamos ficando perto deles. Eles sempre tem alguma história engraçada para contar. E, quando não tem, estão prontos para criar uma nova, melhor do que a antiga. Às vezes eles nos metem no meio, às vezes nós apenas os assistimos fazerem merda. Mas nós meio que crescemos todos juntos, então, essa coisa de levar a culpa todo mundo junto é uma lei para todos nós. E nunca, jamais, dedurar o outro. Até hoje, isso sempre funcionou muito bem parar as garotas, que nunca somos pegas fazendo algo errado.
- E aí, Anna, pronta para deixar eu te pegar essa noite? – todos riram. O Pedro era meio assim com todas as garotas e, no final, não pegava ninguém. Mas era engraçado vê-lo tentar. Muito engraçado.
- Pronto para me ver fugir de você a noite inteira? – eu ri.
- Algum dia, Anna, você ainda terá a sorte de provar do meu sabor. – eu estava prestes a responder quando senti uma mão tocar no meu ombro. Pensei que fosse um dos garotos me empurrando em direção ao Pedro, até que a sua voz circulou nos meus ouvidos.
- Que sabor o que, Pedro. Vaza daqui. – a voz grossa meio de criança que acabou de passar por aquela mudança me acertou como um tapa na cara e eu mal conseguia pensar em nada.
- Bê! Tu voltou! – eu corri e o abracei com toda a força que podia.
O que, só para constar, foi meio constrangedor, considerando que eu estava de biquíni e ele de bermuda.
Acontece que o Bernardo foi um dos meus melhores amigos desde… Desde que eu consigo me lembrar de pensar. Nós estudamos juntos desde que eu me considero gente e sempre nos demos bem. Só que, de uns anos pra cá, quando a amizade entre guris e gurias se tornou algo mais freqüente, nós descobrimos que temos muito mais em comum do que com todo o resto. Ouvimos as mesmas músicas, vemos os mesmos filmes. Concordamos que Dramione é a coisa mais ridícula que existe na face da Terra. E que Harry Potter ganha de Senhor dos Anéis num piscar de olhos. Não que ele tenha comentado isso com algum dos amigos dele, mas ainda assim… Ele revelou esse segredo para mim. Nós dois choramos juntos assistindo Sempre ao Seu Lado no meu quarto, abraçados.
E a grande merda que eu fiz na minha vida foi começar a sentir algo mais por ele. Não me entendam mal, ele nunca disse que não sentia o mesmo, mas também nunca disse o que sentia. Ele não é desse tipo que sai ficando com qualquer piranha que dá de cara com ele, mas a aparência não impede de que várias delas caiam em cima. (E que, de vez em quando, ele se deixe cair pela tentação.) Assim como não impediu que eu abrisse meus olhos um pouco mais e o enxergasse de uma maneira… Diferente.
Há algum tempo, eu cheguei a conclusão de que ninguém pode me julgar por isso, afinal, eu diria que era algo quase inevitável. O cara é legal, divertido e querido. E a gente começou a se falar demais. E começou a se conhecer. E… E eu comecei a me apaixonar. Enquanto isso, ele me transformou na sua melhor amiga. E eu não sei se isso é algo ruim ou péssimo, mas, aos poucos, estou descobrindo que a minha nova e mais simples função inclui ficar ouvindo ele falar durante horas sobre conquistas e coisas do gênero.
Talvez não tão simples assim.
- Anna, meu Deus! Assim parece que eu fiquei fora durante anos! – Eu me afastei um pouco e o olhei com um sorriso nos lábios. Obviamente, ele estava com a pele bronzeada e os cabelos haviam clareado um pouco. Um mês na praia dá nisso. Com aproximadamente 1,80 metro, ombros largos, olhos azuis e cabelo mel queimado, o Bernardo não era exatamente o que se chama de feio. Ao contrário. Completamente o contrário disso.
- Pensei que você só fosse voltar no final de semana, então, não tive tempo de me preparar para de ter as boas vindas como uma pessoa normal. – o sorriso dele se ergueu. – E aí? Vai ficar me encarando ou vai me contar as novidades? Como foi a viagem?
- Ah, sim… As novidades. – ele gargalhou.
- Vocês dois vão ficar nessa de casalzinho secreto ou vão assumir logo o relacionamento para o resto de nós, meros mortais? Apesar de eu ainda te desejar, Anna, posso abrir uma vaga para o meu amigo Bernardo. Acho que ele cuidaria bem de você. – o Pedro jamais perdia a chance de fazer algum tipo de piada maldosa com a gente.
Senti as risadas das gurias nas minhas costas e tive vontade de cortar a cabeça delas apenas com a força dos meus pensamentos.
- Cala a boa, Pedro. – repliquei.
Enquanto isso, o Bernardo apenas riu.
O jeito como ele sempre jogava a cabeça para trás quando soltava uma risada me deixava sem ar. Ou me dava ar demais, por que eu sempre acabava rindo junto. E sabia que não deveria me sentir assim.
- Pedro, desiste, cara. Chegou tarde demais na hora da disputa, ela já é a minha garota.
- Isso é o que veremos quando ela perceber que eu sempre fui o cara certo para ela, sabe.
Ele apenas riu e deu uns tapinhas nas costas do Pedro, rindo.
- Veremos, cara, veremos. – e, virando-se para mim, disse:
- Olha, Anna… Eu tenho ótimas ou péssimas novidades. Nem eu sei direito. Mas não dá pra contar aqui, na frente de todo mundo. Vem dar uma caminhada comigo. – Eu fui. Sem nem pensar duas vezes.
Meus olhos se abrem lentamente na mais completa escuridão do meu quarto enquanto eu escuto o despertador tocar. A música irritante não para, e vai ficando cada vez mais e mais alta, até que nem mesmo o travesseiro posto sobre a minha cabeça é capaz de amenizar o som. Desisto de lutar a favor da minha vontade de continuar na cama e caminho até a cômoda.
- Droga. Essas merdas não têm um limite de tempo para ficar tocando?
Eu olho para a tela. Ah, não. Não era o despertador tocando. Ainda falta uma semana para as aulas recomeçarem, não faria sentido o despertador tocar. Mas a música é a mesma. E, considerando a minha incapacibilidade de abrir os olhos e mexer meu corpo de uma maneira correta, o horário também era parecido.
- Quantas vezes eu vou ter que dizer que eu realmente detesto que me acordem de manhã para você compreender que eu falo sério, Bia?
- Quantas forem necessárias até você compreender que o seu “de manhã” é uma e meia da tarde. E, a essa hora, nós já deveríamos estar na rua fazendo alguma coisa para aproveitar a última semana de férias. Que tal uma praia? Piscina? Qualquer coisa menos ficar em casa socada que nem um zumbi sem vida? Não sei se você lembra, Anna, mas você tem muitos amigos e etc. Pessoas que gostariam que você sociabilizasse mais com elas.
Talvez não tão cedo assim.
- É… Estou bem lembrada. Os mesmos amigos que eu vi anteontem, e antes também? Acho que os reconheço. – eu revirei os olhos e sorri - Larga de ser chata, Bia, eu só não saí ontem com vocês por que não pude.
- Mas agora pode! Vamos, Anna, por favor?
Esse é o problema com a Bia. Ela é minha melhor amiga, mas é animada e social demais. Eu gosto de sair, mas também é bom ficar em casa sozinha, de vez em quando. E isso é algo que ela é incapaz de compreender. Só que… Alguns laços são complicados de serem explicados, e é por isso que a gente não se larga. Chega a ser engraçado como duas pessoas tão opostas podem se dar tão bem, mas nós sempre fomos assim. Eu não consigo imaginar o dia em que não seremos.
- Acabei de acordar, Bia. Não quer ligar pra Laura e aí vocês vão indo? Depois encontro vocês lá na casinha… Qual o número mesmo?
- Dezessete, Anna. – eu escutei sua risada animada - Meu Deus. Tenta acordar antes de ir, ok? Beijo.
Assim que ela desligou, eu estava acordado o suficiente para perceber que eu estava com uma dor de cabeça horrível, mas não o bastante para deixar de reparar que o silêncio dominava a casa. Com toda a certeza do mundo, eu estava sozinha. Nunca haveria tanto silêncio se o meu irmão e a minha mãe estivessem em casa, nunca vi duas pessoas que gostam mais de discutir do que os dois. E, quando eles não discutem, estão rindo alto demais ou falando alto demais. Nada nunca é de menos, sempre demais.
Não que eu me incomode com isso, os dois geralmente são legais. Quando não estão gritando um com o outro ou comigo. A minha mãe faz aquele estilo de mãe solteira que fez um bem enorme se separando. Parece que ela rejuvenesceu uns 10 anos depois que meu pai foi embora. Enquanto isso, meu irmão é o palhaço daqui. Ele sempre nos faz rir pra caralho, mas isso não significa que ele seja sempre do bem. Nós nos damos bem, mas sei as coisas erradas que ele faz pra algumas outras pessoas. Geralmente, garotas inocentes que acreditam que ele vai querer algo com sério com alguma delas. Sem contar a completa falta de responsabilidade e a infantilidade presentes em cada fibra dele. Nenhuma família é perfeita.
E não que isso importe, de qualquer jeito. Não é culpa minha se eu tenho algumas complicações familiares pendentes. Nós, três quartos de tempo, estamos nos dando bem. Além do mais, eu tenho coisas bem mais importantes para pensar… Como, por exemplo, por que nunca tem comida na geladeira. Nem nas prateleiras. Nem em lugar nenhum.
Desisto de comer algo mais substancial e corro de volta para o meu quarto para colocar o biquíni e correr para a praia “aproveitar” a última semana das minhas férias.
Como se já não tivesse aproveitado o suficiente.
No caminho para a praia, penso sobre como aquele cansaço que eu sentia não era algo normal, principalmente para uma adolescente que não fazia absolutamente nada durante todo o dia. Era engraçado pensar sobre isso, mas era como se algo dentro de mim estivesse… Faltando. Algum pedaço, bem lá no fundo, estava precisando ser preenchido e eu sabia muito bem com o quê.
Amor.
Extremamente clichê, eu sei. Mas verdadeiro.
Não que eu acreditasse nessas baboseiras de que o primeiro amor fosse ser eterno. E não que eu achasse que estava amando. Estava apenas… Encantada. Só isso. Aliás, acreditava que só se podia amar uma pessoa durante toda a vida, como se amor fosse a solução para todos os meus problemas. Tinha certeza absoluta que não era, mas não conseguia deixar de pensar daquela maneira. Parte de mim queria ser preenchida de uma forma tão feroz que chegava a me assustar. E o pavor maior era pelo fato de saber exatamente de quem precisava.
Dele.
Graças a Deus, vi os cabelos loiros e lisos das minhas amigas bem a frente. Gritei para chamá-las e, de alguma forma, tinha a esperança de que elas conseguissem tirar-me daquele devaneio sobre como se sentia solitária e masoquista. E, sendo sincera comigo mesma, extremamente estúpida por sequer pensar naquilo.