Hoje a lua é vermelha.

CAPÍTULO I. parte 1.

Meus olhos se abrem lentamente na mais completa escuridão do meu quarto enquanto eu escuto o despertador tocar. A música irritante não para, e vai ficando cada vez mais e mais alta, até que nem mesmo o travesseiro posto sobre a minha cabeça é capaz de amenizar o som. Desisto de lutar a favor da minha vontade de continuar na cama e caminho até a cômoda.
- Droga. Essas merdas não têm um limite de tempo para ficar tocando?
Eu olho para a tela. Ah, não. Não era o despertador tocando. Ainda falta uma semana para as aulas recomeçarem, não faria sentido o despertador tocar. Mas a música é a mesma. E, considerando a minha incapacibilidade de abrir os olhos e mexer meu corpo de uma maneira correta, o horário também era parecido.
- Quantas vezes eu vou ter que dizer que eu realmente detesto que me acordem de manhã para você compreender que eu falo sério, Bia?
- Quantas forem necessárias até você compreender que o seu “de manhã” é uma e meia da tarde. E, a essa hora, nós já deveríamos estar na rua fazendo alguma coisa para aproveitar a última semana de férias. Que tal uma praia? Piscina? Qualquer coisa menos ficar em casa socada que nem um zumbi sem vida? Não sei se você lembra, Anna, mas você tem muitos amigos e etc. Pessoas que gostariam que você sociabilizasse mais com elas.
Talvez não tão cedo assim.
- É… Estou bem lembrada. Os mesmos amigos que eu vi anteontem, e antes também? Acho que os reconheço. – eu revirei os olhos e sorri - Larga de ser chata, Bia, eu só não saí ontem com vocês por que não pude.
- Mas agora pode! Vamos, Anna, por favor?
Esse é o problema com a Bia. Ela é minha melhor amiga, mas é animada e social demais. Eu gosto de sair, mas também é bom ficar em casa sozinha, de vez em quando. E isso é algo que ela é incapaz de compreender. Só que… Alguns laços são complicados de serem explicados, e é por isso que a gente não se larga. Chega a ser engraçado como duas pessoas tão opostas podem se dar tão bem, mas nós sempre fomos assim. Eu não consigo imaginar o dia em que não seremos.
- Acabei de acordar, Bia. Não quer ligar pra Laura e aí vocês vão indo? Depois encontro vocês lá na casinha… Qual o número mesmo?
- Dezessete, Anna. – eu escutei sua risada animada - Meu Deus. Tenta acordar antes de ir, ok? Beijo.
Assim que ela desligou, eu estava acordado o suficiente para perceber que eu estava com uma dor de cabeça horrível, mas não o bastante para deixar de reparar que o silêncio dominava a casa. Com toda a certeza do mundo, eu estava sozinha. Nunca haveria tanto silêncio se o meu irmão e a minha mãe estivessem em casa, nunca vi duas pessoas que gostam mais de discutir do que os dois. E, quando eles não discutem, estão rindo alto demais ou falando alto demais. Nada nunca é de menos, sempre demais.
Não que eu me incomode com isso, os dois geralmente são legais. Quando não estão gritando um com o outro ou comigo. A minha mãe faz aquele estilo de mãe solteira que fez um bem enorme se separando. Parece que ela rejuvenesceu uns 10 anos depois que meu pai foi embora. Enquanto isso, meu irmão é o palhaço daqui. Ele sempre nos faz rir pra caralho, mas isso não significa que ele seja sempre do bem. Nós nos damos bem, mas sei as coisas erradas que ele faz pra algumas outras pessoas. Geralmente, garotas inocentes que acreditam que ele vai querer algo com sério com alguma delas. Sem contar a completa falta de responsabilidade e a infantilidade presentes em cada fibra dele. Nenhuma família é perfeita.
E não que isso importe, de qualquer jeito. Não é culpa minha se eu tenho algumas complicações familiares pendentes. Nós, três quartos de tempo, estamos nos dando bem. Além do mais, eu tenho coisas bem mais importantes para pensar… Como, por exemplo, por que nunca tem comida na geladeira. Nem nas prateleiras. Nem em lugar nenhum.
Desisto de comer algo mais substancial e corro de volta para o meu quarto para colocar o biquíni e correr para a praia “aproveitar” a última semana das minhas férias.
Como se já não tivesse aproveitado o suficiente.
No caminho para a praia, penso sobre como aquele cansaço que eu sentia não era algo normal, principalmente para uma adolescente que não fazia absolutamente nada durante todo o dia. Era engraçado pensar sobre isso, mas era como se algo dentro de mim estivesse… Faltando. Algum pedaço, bem lá no fundo, estava precisando ser preenchido e eu sabia muito bem com o quê.
Amor.
Extremamente clichê, eu sei. Mas verdadeiro.
Não que eu acreditasse nessas baboseiras de que o primeiro amor fosse ser eterno. E não que eu achasse que estava amando. Estava apenas… Encantada. Só isso. Aliás, acreditava que só se podia amar uma pessoa durante toda a vida, como se amor fosse a solução para todos os meus problemas. Tinha certeza absoluta que não era, mas não conseguia deixar de pensar daquela maneira. Parte de mim queria ser preenchida de uma forma tão feroz que chegava a me assustar. E o pavor maior era pelo fato de saber exatamente de quem precisava.
Dele.
Graças a Deus, vi os cabelos loiros e lisos das minhas amigas bem a frente. Gritei para chamá-las e, de alguma forma, tinha a esperança de que elas conseguissem tirar-me daquele devaneio sobre como se sentia solitária e masoquista. E, sendo sincera comigo mesma, extremamente estúpida por sequer pensar naquilo.

(Lua Vermelha.)


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