- Anna, por favor! É a nossa última semana de férias. Depois, nós vamos voltar ao martírio que é ir à escola todos os dias da semana, sem nem conseguir respirar! – eu ri do exagero da Bia.
- Como se nós não saíssemos durante as aulas também. – repliquei.
- Verdade, Bia. Mas, mesmo assim, eu acho que nós deveríamos ir. A Cabana sempre dá umas festas legais, sempre distrai a mente de coisas ruins e etc. Além disso, todo mundo vai nessa Última Fantasia. – a Laura era a mais sensata de nós três, com certeza. Sensata e perceptiva. Seus olhos me perfuraram quando ela disse “distrai a mente de coisas ruins”. – Parece nome de um baile de máscaras, mas, que eu saiba, não é.
- Imagina só que romântico! – disse Bia.
- Isso parece nome de filme pornô, gurias. – eu falei com um tom sarcástico.
- Anna, não importa o nome! – se eu dissesse mais alguma coisa, acho que a Bia chorava. A Laura começou a rir e concordou comigo.
- Eu não disse que eu não iria, só comentei que o nome da festa é horrível. Vocês não me deram a mínima chance de responder. – Eu sorri
- Então…?
- Perder meu fim de semana com a minha mãe cozinhando e ouvindo músicas ruins a todo volume ou indo à uma festa com as minhas amigas? Escolha difícil essa.
- Fala com todas as letras! Sério, Anna. Não vai ser a mesma coisa sem você.
- Acho que eu posso fazer esse esforço por vocês… – Nós três caímos na gargalhada e começamos a andar em direção ao píer.
A praia de Leona não era exatamente a mais bonita de todas, mas fazia muito sol durante o verão e a cidade em si era feita de gente mais nova. Por isso, ninguém se importava muito com o fato de que a água não era tão limpa quanto devia, nem tão azul. E que ventava bastante em alguns dias. A galera toda – a minha galera, pelo menos – se reunia perto do píer, na frente da cabana do Tio João e passava a tarde inteira vadiando por ali. Tinha vezes que os guris inventavam alguma coisa estúpida e engraçada para fazer e nós acabávamos nos metendo em furada. Como a vez em que eles resolveram invadir uma das casas beira mar que pareciam abandonadas durante o inverno para roubar comida da cozinha.
No final, eles voltaram com uma batata Ruffles, três PlayBoys e cinco camisinhas.
É por isso que nós sempre acabamos ficando perto deles. Eles sempre tem alguma história engraçada para contar. E, quando não tem, estão prontos para criar uma nova, melhor do que a antiga. Às vezes eles nos metem no meio, às vezes nós apenas os assistimos fazerem merda. Mas nós meio que crescemos todos juntos, então, essa coisa de levar a culpa todo mundo junto é uma lei para todos nós. E nunca, jamais, dedurar o outro. Até hoje, isso sempre funcionou muito bem parar as garotas, que nunca somos pegas fazendo algo errado.
- E aí, Anna, pronta para deixar eu te pegar essa noite? – todos riram. O Pedro era meio assim com todas as garotas e, no final, não pegava ninguém. Mas era engraçado vê-lo tentar. Muito engraçado.
- Pronto para me ver fugir de você a noite inteira? – eu ri.
- Algum dia, Anna, você ainda terá a sorte de provar do meu sabor. – eu estava prestes a responder quando senti uma mão tocar no meu ombro. Pensei que fosse um dos garotos me empurrando em direção ao Pedro, até que a sua voz circulou nos meus ouvidos.
- Que sabor o que, Pedro. Vaza daqui. – a voz grossa meio de criança que acabou de passar por aquela mudança me acertou como um tapa na cara e eu mal conseguia pensar em nada.
- Bê! Tu voltou! – eu corri e o abracei com toda a força que podia.
O que, só para constar, foi meio constrangedor, considerando que eu estava de biquíni e ele de bermuda.
Acontece que o Bernardo foi um dos meus melhores amigos desde… Desde que eu consigo me lembrar de pensar. Nós estudamos juntos desde que eu me considero gente e sempre nos demos bem. Só que, de uns anos pra cá, quando a amizade entre guris e gurias se tornou algo mais freqüente, nós descobrimos que temos muito mais em comum do que com todo o resto. Ouvimos as mesmas músicas, vemos os mesmos filmes. Concordamos que Dramione é a coisa mais ridícula que existe na face da Terra. E que Harry Potter ganha de Senhor dos Anéis num piscar de olhos. Não que ele tenha comentado isso com algum dos amigos dele, mas ainda assim… Ele revelou esse segredo para mim. Nós dois choramos juntos assistindo Sempre ao Seu Lado no meu quarto, abraçados.
E a grande merda que eu fiz na minha vida foi começar a sentir algo mais por ele. Não me entendam mal, ele nunca disse que não sentia o mesmo, mas também nunca disse o que sentia. Ele não é desse tipo que sai ficando com qualquer piranha que dá de cara com ele, mas a aparência não impede de que várias delas caiam em cima. (E que, de vez em quando, ele se deixe cair pela tentação.) Assim como não impediu que eu abrisse meus olhos um pouco mais e o enxergasse de uma maneira… Diferente.
Há algum tempo, eu cheguei a conclusão de que ninguém pode me julgar por isso, afinal, eu diria que era algo quase inevitável. O cara é legal, divertido e querido. E a gente começou a se falar demais. E começou a se conhecer. E… E eu comecei a me apaixonar. Enquanto isso, ele me transformou na sua melhor amiga. E eu não sei se isso é algo ruim ou péssimo, mas, aos poucos, estou descobrindo que a minha nova e mais simples função inclui ficar ouvindo ele falar durante horas sobre conquistas e coisas do gênero.
Talvez não tão simples assim.
- Anna, meu Deus! Assim parece que eu fiquei fora durante anos! – Eu me afastei um pouco e o olhei com um sorriso nos lábios. Obviamente, ele estava com a pele bronzeada e os cabelos haviam clareado um pouco. Um mês na praia dá nisso. Com aproximadamente 1,80 metro, ombros largos, olhos azuis e cabelo mel queimado, o Bernardo não era exatamente o que se chama de feio. Ao contrário. Completamente o contrário disso.
- Pensei que você só fosse voltar no final de semana, então, não tive tempo de me preparar para de ter as boas vindas como uma pessoa normal. – o sorriso dele se ergueu. – E aí? Vai ficar me encarando ou vai me contar as novidades? Como foi a viagem?
- Ah, sim… As novidades. – ele gargalhou.
- Vocês dois vão ficar nessa de casalzinho secreto ou vão assumir logo o relacionamento para o resto de nós, meros mortais? Apesar de eu ainda te desejar, Anna, posso abrir uma vaga para o meu amigo Bernardo. Acho que ele cuidaria bem de você. – o Pedro jamais perdia a chance de fazer algum tipo de piada maldosa com a gente.
Senti as risadas das gurias nas minhas costas e tive vontade de cortar a cabeça delas apenas com a força dos meus pensamentos.
- Cala a boa, Pedro. – repliquei.
Enquanto isso, o Bernardo apenas riu.
O jeito como ele sempre jogava a cabeça para trás quando soltava uma risada me deixava sem ar. Ou me dava ar demais, por que eu sempre acabava rindo junto. E sabia que não deveria me sentir assim.
- Pedro, desiste, cara. Chegou tarde demais na hora da disputa, ela já é a minha garota.
- Isso é o que veremos quando ela perceber que eu sempre fui o cara certo para ela, sabe.
Ele apenas riu e deu uns tapinhas nas costas do Pedro, rindo.
- Veremos, cara, veremos. – e, virando-se para mim, disse:
- Olha, Anna… Eu tenho ótimas ou péssimas novidades. Nem eu sei direito. Mas não dá pra contar aqui, na frente de todo mundo. Vem dar uma caminhada comigo. – Eu fui. Sem nem pensar duas vezes.